quarta-feira, 11 de maio de 2011

5º encontro - Relato


Nosso 5º encontro foi sobre o tema da confiança. A atividade que eu havia preparado não era exatamente essa, mas a dinâmica do grupo levou naturalmente a aprofundar esse assunto e tudo correu de maneira muito fluida. Cada exercício encaminhava para o próximo e a energia do grupo foi ficando cada vez mais coesa.

No teatro, o ator deve estar com a percepção aguçada e aberta para sentir o que a platéia necessita naquele exato momento, e assim dosar sua energia e suas dinâmicas. Acredito que o professor também tem essa sabedoria de saber “ouvir” o que seus alunos necessitam no momento e ter a liberdade de corrigir a rota em pleno vôo. Confiar na vida e seguir o fluxo com o mínimo de resistência. Essa foi nossa experiência do dia.

Começamos com nossa tradicional roda de nomes, para estabelecer o momento de encontro e reforçar ainda mais o nome de cada pessoa. Dessa vez, no entanto, usamos uma bola para lançar ao companheiro enquanto se fala o seu nome. Logo em seguida fizemos um exercício também com a bola. Com o grupo espalhado pelo espaço, devemos lançar a bola de uma pessoa a outra apenas dando um toque com a mão, sem segurá-la ou parar o jogo. O objetivo é não deixar a bola cair no chão. Todos contam juntos: 1, 2, 3, 4... até a bola cair. Quando ela cair, recomeçamos a contagem do número 1. Jogos lúdicos são sempre interessantes para descontrair e criar integração no grupo.

A seguir realizamos um exercício em duplas. Sem tocar no corpo do companheiro, os dois juntos devem procurar ir preenchendo os espaços vazios no corpo do companheiro, criando uma “dança” juntos. É importante manter a calma e realizar movimentos lentos, sem pressa, para ir encontrando um fluxo natural de gestos que harmonicamente vão criando seu caminho. Aqui já é possível identificar sinais de ansiedade ou resistência em se entregar ao fluxo orgânico.

Na seqüência realizamos outro exercício em duplas, agora com contato. Começando de costas um para o outro, os parceiros dever apoiar o seu peso sobre o corpo do companheiro, de forma que o equilíbrio esteja sempre compartilhado entre os dois corpos. A partir daí, devem ir criando movimentos para encontrar outras possibilidades de manter o contato e o equilíbrio compartilhado. Essa atividade já exige um grau maior de disponibilidade de entrega e confiança no parceiro. Os dois são responsáveis por dar apoio e inspirar sensação de confiança ao companheiro.

Continuando, realizamos o exercício do “João Bobo”. O grupo permanece em roda bem fechada e alguém se coloca no centro. Essa pessoa do centro deve permanecer com o corpo ereto e rígido, sem dobrar o corpo em nenhum ponto e com os pés juntos e fixos no lugar. Ele fecha os olhos e entrega o peso do seu corpo para que os companheiros da roda o segurem. Então a roda vai apoiando, sustentando e deslocando o corpo do companheiro para vários pontos do círculo, como se fosse um João Bobo. É importante que todos na roda estejam bem enraizados, na posição de “samurai” ou “sentar no cavalo”, com as pernas afastadas e joelhos dobrados. Dessa forma eles transmitem confiança à pessoa que está no centro. Esse exercício requer já um grande grau de confiança no grupo e é possível identificar que tem mais disponibilidade para aceitar e se entregar sem medo.

Na seqüência realizamos vários exercícios onde o grupo deve trabalhar de olhos fechados. Na primeira atividade, em duplas, um parceiro fecha os olhos e o outro o conduz para um passeio andando pela sala, apenas mantendo contato através da ponta do dedo indicador de cada um. Quem está conduzindo deve manter-se muito atento e cuidar para que não haja trombadas e assim inspirar total confiança no parceiro. Depois invertem o condutor e conduzido para que os dois passem pelas duas experiências. A seguir, realizamos o mesmo exercício, mas agora sem nenhum contato físico. O condutor deve indicar a direção apenas dizendo o nome do seu parceiro que, ainda de olhos fechados, vai se deslocando pela sala tendo como referência apenas a voz do seu companheiro. Isso vai aumentando a exigência de confiança e destemor. Sugiro que esse exercício termine num abraço, que inspira acolhimento e cuidado.

Depois colocamos duas marcas num canto da sala, afastadas mais ou menos um metro e meio uma da outra. Um por vez, cada membro do grupo deveria cruzar a sala na diagonal em linha reta, de olhos fechados, procurando chegar exatamente entre as marcas. Uma pessoa fica atrás da chegada para acolher o parceiro e delimitar o fim do trajeto. É possível também propor que o trajeto seja percorrido correndo. Nesse exercício, é visível a resistência que temos no corpo em termos de entrega. Em muitos casos, o corpo desacelera e freia muito antes de alcançar o ponto de chegada, mesmo sabendo que há alguém para marcar o ponto de finalização.

Logo após, solicitamos que todos fechassem os olhos e andassem pela sala num ritmo que sentissem que fosse confortável e seguro, caso esbarrassem em outra pessoa. Deve-se andar tranquilamente, sem colocar os braços à frente. É interessante porque, no início ocorrem várias “trombadas” e a maioria se sente um pouco perdida. Mas conforme o exercício continua, as pessoas começam a exercitar outras formas de percepção, como o sons de passos, as vozes, os sons da rua, o deslocamento e a temperatura do ar quando se aproximam de outra pessoa, e aí os movimentos se tornam mais harmoniosos e diminuem os esbarrões. Isso requer maior grau de concentração e contato com as próprias sensações, uma escuta aprimorada do próprio corpo, e conseqüente confiança nessas sensações.

Para terminar essa seqüência, colocamos uma música e convidamos todos a dançarem pelo espaço também de olhos fechados, colocando em ação essas novas formas de percepção. É estimulante notar como estão mais tranqüilos, mais enraizados e mais entregues ao fluxo. Esse fluxo é indicado pela música, mas também pelas sensações físicas, pelo corpo, pela vida que está vibrando entre os corpos e preenchendo a sala toda. A seguir fizemos uma roda para comentar as percepções de cada um.

Aqui acredito ser importante enfatizar alguns comentários. É muito importante que o corpo experimente na prática situações que inspirem confiança, como os exercícios que foram realizados com o grupo. Cada vez que se passa pelo exercício, a experiência vai sendo reforçada e ganhamos também em autoconfiança. Por outro lado, todos têm histórias de vida que em algum momento foi marcada por situações difíceis, que inspiraram medos, desconfianças, recolhimentos. Isso tudo fica marcado no corpo como um mecanismo de defesa que naturalmente tem medo de repetir a experiência negativa. Acredito que não devemos brigar com essas resistências, elas tiveram a sua função de proteção. É mais produtivo aceitá-las e acolhê-las, para passar a reforçar agora experiências afirmativas. Pode haver grande rigidez, medo e resistência, o que gera uma primeira impressão de dificuldade de contato e até de agressividade. O desafio é encontrar uma brecha onde ainda há uma centelha de vida vibrando, mesmo que frágil, para colocarmos ali o nosso foco e, muito pacientemente, ir afirmando essa parte para que ela se fortaleça e se expresse de maneira cada vez mais potente. Para isso, é preciso afinar a sensibilidade e verdadeiramente olhar para aquele ser, para ter a possibilidade de criar maneiras efetivas de cativá-lo, maneiras essas que sempre serão singulares, personalizadas e únicas. O professor também é um criador, um poeta, um artista do seu ofício.

Após o intervalo, voltamos a fazer o exercício individual de improviso baseado numa música que seja significativa para o participante. Cada um é convidado a trazer a sua música. Ele deve entrar em cena, se colocar em posição e deixar seu corpo fluir naturalmente a partir dos estímulos da música, criando uma dança pessoal. Essa dança não necessita de referências, não precisa ser certinha, nem seguir nenhum modelo. O importante é que ela faça total sentido para quem a executa, que traga prazer e alegria, que liberte os afetos e emoções criando imagens através do movimento. O grupo assiste cada performance e depois comenta.

Tivemos a grande alegria de testemunhar três apresentações que foram verdadeiros presentes. Todas extremamente vibrantes, cheias de energia e prazer. Essa vitalidade colocada em movimento é altamente contagiante. Os companheiros que assistiam relataram, animados, a vontade de também se lançar ao movimento imediatamente.

Percebeu-se assim, de maneira muito prática, na ação, que quando alguém toma posse da sua vida por inteiro, quando se permite dilatar e vibrar o corpo com alegria, isso necessariamente estimula os demais a fazer o mesmo. Expressar o meu melhor convida a todos a expressarem também o seu melhor. Acredito que essa seja uma atitude política das mais eficazes. Afirmando a minha alegria, meu corpo e os meus talentos, eu mostro que isso é possível e contagio os demais a seguirem também os seus mais vibrantes desejos de vida.

Terminamos numa roda onde cada um deveria criar um som. Um de cada vez foi somando seu som ao anterior até toda a roda criar uma grande sinfonia, tornando concreta a música que já estava, de alguma maneira, vibrando na sala.

5º encontro - Fotos

Fotos do nosso 5º encontro. Trabalhamos o tema da confiança. As fotos são de Angela Sassine. Veja todo o álbum de fotos clicando aqui 


















quarta-feira, 4 de maio de 2011

Entrevista com Rubem Alves

Vale a pena ver a entrevista do educador Rubem Alves no programa Provocações da TV Cultura, que foi ao ar nesta terça-feira, 3 de maio.

4º encontro - Relato


No nosso 4º encontro, o grupo já apresenta um entrosamento bem mais profundo. Todos estão visivelmente mais relaxados e à vontade para se experimentarem nos exercícios, inclusive para se divertirem muito, minimizando possíveis autocríticas e inibições. 

Demos início ao trabalho com aquecimento livre estimulado por música. Cada um, bem devagar e delicadamente, vai colocando o corpo em movimento e despertando as partes ainda adormecidas. Aos poucos o movimento ganha intensidade e cada um vai desenvolvendo uma dança pessoal, realizando os gestos que façam mais sentido para as necessidades do seu corpo no aqui e agora. No auge desse trabalho, podemos nos deslocar pelo espaço e expandir nossa expressão pela sala, estabelecendo encontros entre os participantes que, juntos, inventam uma dança única e singular.

Depois desse aquecimento, fizemos a dinâmica de roda para reforçar a memória do nome de cada um. A seguir realizamos um jogo simples de coordenação motora. Em duplas, frente a frente, os parceiros devem bater as mãos criando uma seqüência: mão direita bate em cima, esquerda embaixo, direita embaixo, esquerda em cima e, para finalizar, as duas mãos juntas em cima. Depois de entender bem essa seqüência, tentar realizá-la o mais rápido possível. Depois, para dinamizar ainda mais, antes de bater as mãos juntas no final, os parceiros devem dar um giro com o corpo todo. É um exercício que estimula a coordenação motora, a atenção no presente, consciência e controle dos movimentos e  entrosamento e colaboração com o parceiro.

A seguir realizamos em duplas um exercício de fluência, onde um parceiro permanece em pé, com os pés bem enraizados, e deixa o corpo solto e leve. O outro parceiro dá pequenos toques empurrando certas partes do corpo: rosto, ombro, quadril ou joelho. Ao receber esse toque, a pessoa deve deixar o corpo seguir o caminho do movimento da forma mais leve, solta e fluída o possível, deixando que aconteça naturalmente. Os pés estão sempre firmes no mesmo lugar.  A cabeça fica solta e acompanha o movimento global. Depois volta-se suavemente à posição inicial ereta. Tudo é muito suave e fluído. Só após voltar à posição inicial o parceiro pode dar o próximo toque. A intenção é experimentar essa qualidade de movimento contínuo, sem bloqueios e sem retração. É um movimento que está presente em toda a natureza, como quando o vento bate na árvore e galhos e folhas realizam esse trajeto de ir e vir em forma de onda. Também o movimento da água do mar tem essa qualidade. E ela também está presente em nosso corpo, faz parte da nossa natureza. Mas pode ser restringida e bloqueada por tensões e inibições, que diminuem nossa capacidade de movimento de maneira crônica. Nossa vida e nosso pensamento então ficam também restritos e truncados.

Para aprofundar essa experiência, pedimos para que todos escolhessem um lugar no espaço e ficassem em pé, enraizados, de olhos fechados. Ao som de uma música apropriada, pedimos para cada um se imaginasse como estando no fundo do mar, tendo seu corpo solto, porém enraizado, sendo afetado pelo movimento das águas (a música). A idéia é deixar o corpo leve, entregue, para aceitar ser “levado” pelo movimento do ambiente e experimentar essa fluência de movimentos arredondados e suaves. É uma experiência de confiar no ambiente, confiar na vida e se deixar ser afetado, sem idéias ou projetos pré-concebidos. Nesse momento é possível identificar tensões, bloqueios e necessidade de controle que endurecem os movimentos. Movimentos soltos são naturalmente graciosos e harmônicos. Aceito os fluxos da vida e me deixo afetar sem medo. Eu surfo nas ondas da vida com confiança, sem querer “dirigir” a onda.

Na seqüência, realizamos um estudo concentrado das articulações com o exercício da estátua. Em duplas, uma pessoa é a estátua e o outro é o escultor. A estátua tem um tônus firme e oferece alguma resistência. O escultor deve movimentar a estátua para formar a imagem que ele desejar. A estátua só pode movimentar UMA ARTICULAÇÃO POR VEZ. O escultor, inicialmente, só pode usar um dedo, de uma só mão, para direcionar os movimentos. Ele toca e empurra especificamente e pontualmente a parte que desejar movimentar. Ao final analisa a imagem formada e as outras imagens que se construíram no grupo. Em nova rodada, o escultor pode usar dois dedos, um de cada mão, para definir melhor qual é a articulação que ele desejar movimentar, pois usando um só dedo, não é possível deixar claro qual articulação ele está focando. Com dois dedos, ele pode apontar as duas laterais da articulação e então deixar claro o movimento que deseja. Na terceira rodada o escultor pode usar as duas mãos livremente, para ter maior domínio do movimento que desejar efetuar: seu começo e fim. Na última rodada, a estátua se movimenta sozinha, o escultor só observa. Continua valendo a regra: movimentar só uma articulação por vez.

Essa experiência revela a consciência das nossas articulações e as sua possibilidades de movimento. Quantas articulações temos nos braços? E nas mãos? E nas pernas? E no tronco? Na cabeça? Como eu movimento apenas uma por vez, sem mexer mais nenhuma parte do corpo? A atenção sobre o próprio corpo adquire uma qualidade especial. É um verdadeiro estudo e descoberta de novas possibilidades do nosso corpo. E também é um exercício de concentração, para poder realizar uma coisa de cada vez, sem pular etapas, sem ansiedade, com calma e com muita clareza. E novamente, seguindo a nossa filosofia, corpo articulado implica em pensamento articulado. Pensamento confuso normalmente está associado a movimentos confusos e imprecisos. A limpeza e precisão de movimentos nos trazem para o aqui e agora, para o presente, sem ansiedades, deixando nossa expressão também clara e precisa.

A seguir fizemos uma breve revisão dos conceitos básicos de mímica, que possibilitam a criação de imagens no espaço usando apenas nosso próprio corpo. Como definir formato, volume e peso de um objeto que não existe realmente? Como se divertir e brincar com isso? Como deixar a imagem clara e precisa? É importante também aqui a concentração em realizar um movimento por vez, sem ansiedade, para deixar tudo limpo e preciso, e assim comunicar claramente a imagem desejada. É um estudo detalhado dos gestos cotidianos que fazemos normalmente de maneira automática. Com pego um copo? Como abro uma garrafa? Como seguro uma bola? É importante também deixar bem claro o começo e o final do movimento, para só depois iniciar o próximo. Fizemos o exercício do “café da manhã”, onde grupos de 4 ou 5 pessoas representam um grupo sentado em volta de uma mesa para tomar um café da manhã, imaginando e manipulando vários objetos: xícara, bule, garrafa de café, pote de açúcar, pão, manteiga, geléia, etc. É um ótimo exercício que exige imaginação, concentração, clareza e foco.

Depois disso, foi solicitado que cada um imaginasse dois objetos e fizesse uma micro-cena utilizando esses dois objetos, com o máximo de detalhes. Os companheiros assistem e comentam se a imagem estava clara.

A seguir realizamos um improviso onde os grupos, de 4 ou 5 pessoas, deveriam criar uma história com começo, meio e fim, utilizando apenas movimentos, sem falas. Havia um tempo de 15 minutos para ensaiar e durante esse tempo o grupo também não poderia falar nada. Tudo deveria ser combinado apenas através de gestos e movimentos. Ao final, cada grupo apresentou sua cena. Essa dinâmica é reveladora de como o corpo em movimento é necessariamente criativo. Quando o grupo fica preocupado em “se entender” e trava o corpo de alguma forma, a cena demora mais para ser criada. Quando o grupo se joga na brincadeira, colocando o corpo em movimento, o que acontece é um grande prazer de criar. Todos viram crianças. É visível também como a aceitação do jogo e a ausência de crítica ajuda a criatividade geral. Alguém se coloca em movimento e os outros membros do grupo logo aceitam, mesmo sem saber muito bem do que se trata, sem “entender” tudo, e o jogo vai se construindo e tomando forma de maneiras as mais inusitadas. Uma aceitação leva a novas idéias e novas aceitações. O foco se instala no prazer e na alegria. O que não era “tão bom” naturalmente se dissolve sem que lhe fosse dado a atenção de um “erro”.

Na nossa filosofia de afirmação do desejo, o farol é sempre o prazer e a alegria. Sem medo de errar, o erro pode também tornar-se diversão. Dessa maneira, amplia-se as possibilidades de respostas e idéias inéditas e criativas, que certamente serão benéficas para todos.

terça-feira, 3 de maio de 2011

4º encontro - Fotos

Fotos do nosso 4º encontro. Trabalhamos a consciência e estudo das articulações através de exercícios de isolamento. Também experimentamos os conceitos básicos de mímica para construir imagens no espaço usando apenas o corpo. As fotos são de Angela Sassine.
Veja todo o álbum de fotos clicando aqui